JOÃO
GILBERTO NOLL: NARRATIVA PÓS-MODERNA, CORPOS PÓSHUMANOS
Sayonara
Amaral de Oliveira*
Postado por Adelmo Ferreira de Abreu
No
cenário tecno-beligerante de Blade Runner¹, onde tudo parece despencar
dos eixos ou derramar-se na atmosfera fim-de-mundo que tinge os prédios úmidos
da grande metrópole, conta-se uma fábula rigorosamente contemporânea: o humano
mais perfeito é um andróide, e do alto de seu corpo híbrido de fios, sangue e
microchips sofisticados, perguntam-se os indivíduos: Onde está minha memória?
Quem a implantou? Posso ser humano?
Os
tempos atuais sinalizam que não é necessário ir à futurista Nova York, imortalizada
no cult de Ridley Scott, para visibilizar as incertezas de que se cerca
o sujeito quanto ao estatuto de sua auto-referencialidade. Também não será
preciso recorrer à ficção científica para observar o modo como a constituição
dos corpos, na contemporaneidade, cobra novas formas de interpretação, muito
distantes daquelas com as quais estávamos acostumados a pensar as nossas
imagens corporais e as subjetividades que as animam. Próteses, implantes,
enxertos de órgãos artificiais, clonagem, dentre outras técnicas que assinalam
a diluição dos limites entre homem e máquina, natural e artificial, têm feito circular
reflexões em torno do conceito instigante de pós-humano, numa reversão das concepções
tradicionais e dominantes sobre corpos e sujeitos.
A
despeito de ter encontrado sua grande representatividade nos estudos das tecnologias
do cyborg, em que é largamente utilizado, o pós-humano se distende no
vasto campo de questionamentos feitos hoje aos pressupostos centralizantes da
razão ocidental. O conceito permite-se articular onde quer que haja uma revisão
crítica do status quo do sujeito universal, do referencial soberano de
uma humanidade tida como exemplar e Professora de
Teoria da Literatura da Universidade do Estado da Bahia e doutoranda em Letras
pela UFBA. reconhecida pelo pensamento contemporâneo como essencializante,
totalizadora e extremamente excludente.
É
servindo-nos dessa flexibilidade conceitual que consideramos a inclusão da literatura
contemporânea na clave do pós-humano, a partir de uma abordagem do romance A
Fúria do Corpo, do escritor gaúcho João Gilberto Noll. Trata-se de um
exercício de leitura acerca do narrador e da temática do corpo aí representados,
tendo em conta o modo como essas representações tornam-se familiares aos
debates atuais sobre os territórios da subjetividade.
1
Para
situar a diluição do sujeito na narrativa e no pensamento contemporâneos, deve-se
considerar o modo como essa questão já é tocada na prosa moderna do início do século
XX, quando as suspeitas sobre a noção de um Eu estável ganha relevo e se
desdobra no que se convencionou chamar de “crise do narrar”. Em figuras como
Proust, Joyce, Virginia Woolf, para citar apenas três dos mais destacados
escritores da época, o procedimento da escrita torna-se uma fonte inesgotável
de questionamentos de seu mundo, do seu texto e de si mesmos.
A
inquietude irá repercutir sobretudo na questão do ponto de vista, da posição do
narrador diante do que é narrado. Se à escola narrativa tradicional caberia
ostentar um narrador capaz de dominar as ações, situações e caracteres
narrativos com segurança objetiva, à narrativa moderna ficaria resguardada a
tarefa de desmistificar essa pretensa segurança. A prosa moderna não somente
apresenta enredos cujas etapas desobedecem qualquer ordenamento linear bem
como, a partir daí, providencia para que a posição do narrador surja
desmembrada em múltiplas dimensões da consciência. Monólogo interior, fluxo da
consciência e multidimensão espaço-temporal são, dentre outros, os conceitos
que a moderna Teoria Literária cunhou para dar conta dessa complexidade.
Segundo
Eric Auerbach, em seu estudo da mímese na literatura moderna, tais procedimentos
constituem-se num meio de preencher o vazio do homem na busca do real a ser
interpretado; uma busca que, neste caso, nunca é facilitada. Não se cria uma
linha de apoio entre narrador, espaço, tempo e personagens, como também não se
pretende a verossimilhança. Se esta última há, porque sempre há, é apenas para
que o escritor possa (re)produzir no artefato da escritura o desconforto do seu
contexto existencial, as dúvidas e inseguranças diante de um mundo cada vez
mais fragmentado.²
A
aceleração constante do tempo, a difusão da publicidade e o conseqüente estreitamento
da terra, tornam possível o contato, muitas vezes tumultuado, de diversos modos
de ver e pensar, de acordo com Auerbach. Visões filosóficas, religiosas, morais
e econômicas pertencentes à antiga herança do pensamento passam a conviver com
aquelas formas que se ergueram sob a égide do Iluminismo, a exemplo da
democracia, do liberalismo e das novas forças revolucionárias do socialismo. A
profusão incessante de acontecimentos aponta para a impossibilidade de impor à
vida uma ordem que esta mesma não oferece, o que irá repercutir nas produções
artístico-literárias modernas.
A
esse aspecto somam-se questões de grande implicação no plano filosófico. A multireferencialidade
do narrador na prosa moderna vai colocar em xeque aquilo que Anatol Rosenfeld
assinala como sendo a visão em perspectiva, caracterizada pela captura do
mundo a partir da soberania do sujeito, para quem “já não é o mundo que
prescreve as leis à nossa consciência, é esta que prescreve as leis ao mundo”. Surgido
na Antigüidade, com Protágoras, reacendido no cogito de Descartes e confirmado
mais adiante com as filosofias kantianas e hegelianas, o perspectivismo se
fundamenta na lógica antropocêntrica que serve de estofo à trajetória do
humanismo ocidental.
Com
a supressão do narrador-pai, daquele que conduz as personagens e ações com as
mãos de ferro da onisciência, a narrativa do início do século XX, e neste ponto
largamente influenciada pela psicanálise freudiana, irá promover o descrédito
da visão de mundo soldada na autoconsciência do indivíduo, legitimando, assim,
uma leitura crítica que ganhará fôlego na contemporaneidade.
Reconhecemos
que discutir o pensamento contemporâneo tomando como ponto de partida a
literatura européia do início do século XX certamente coloca alguns problemas.
O mais relevante diz respeito à delimitação entre o que se convencionou chamar
de “poética da modernidade” e “poética da pós-modernidade”, considerando-se
questões complexas no campo da atual literatura comparada, em que o cânone
artístico eurocêntrico se vê questionado. Nesse sentido, aproximar a literatura
moderna — branca, burguesa e erudita — dos lugares e práticas discursivas
alternativas que hoje permeiam a noção crítica de póshumano se constituiria num
contrasenso conceitual. Entretanto, pela força do método, analisar o sujeito
diluído na narrativa contemporânea exige reconhecer as marcas dessa diluição
como já presentes no pensamento da chamada “alta modernidade”.
São
as discussões empreendidas por Jacques Derrida sobre a desconstrução da metafísica
que melhor esclarecem o processo de desestabilização da consciência no sujeito.
Utilizando-se do jargão da lingüística, numa análise da estrutura do signo,
Derrida afirma que o pensamento ocidental sempre se orientou para a crença de
um ponto central fora do campo da estruturalidade e, paradoxalmente,
imprescindível a ela. Em não ser interpelado (pelo pensamento clássico e
metafísico da estrutura) como uma estrutura qualquer, esse centro acarreta
para si o estatuto da origem e do fim, portanto, de verdade
inquestionável. Nessa perspectiva, o centro mantém para com a estrutura de que
é tomado enquanto tal uma relação de transcendentalidade: a sua presença, plena
e absoluta, pretende se subtrair à possibilidade de ser abordada como um lugar
passível de se dinamizarem movimentos de substituições no campo das
significações.
A
articulação desses movimentos, que Derrida designa sob o conceito de jogo, tornou-se
possível com o pensar a estruturalidade da estrutura a partir de um descentramento,
ou seja, com a consciência de que o centro não havia, de que ele (o centro) “não
tinha um lugar natural, que não era um lugar fixo mas uma função, uma espécie
de não-lugar no qual se faziam indefinidamente substituições de signos”.
É
importante observar que Derrida define o tema do descentramento não como um método
ou teoria, mas como um processo, uma produção de saberes que se dinamiza, em maior
ou menor intensidade, na episteme que atravessa a nossa época.
Descentrar é, antes de tudo, expor o caráter de construto embutido em todo
conceito que se pretenda agenciador da verdade, assinalando a não-existência de
uma identidade calcada nas essencialidades e constatando que, nas palavras de
Michel Foucault, “atrás das coisas há algo inteiramente diferente; não o seu
segredo essencial e sem data, mas o segredo de que elas são sem essência, ou
que sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram
estranhas”.
A
motivação de que se cerca essa construção do fundamento ou da essência transcendental
se dá pelo conforto da estabilidade, disseminado na possibilidade de escapulir
à potência vertiginosa do jogo:
O
conceito de estrutura centrada é com efeito o conceito de um jogo fundado, constituído a partir de uma
imobilidade fundadora e de uma certeza tranquilizadora, ela própria subtraída
ao jogo. A partir dessa certeza, a angústia pode ser dominada, a qual nasce
sempre de uma certa maneira de estar implicado no jogo, de ser apanhado no
jogo, de ser como ser logo no início do jogo. (Cf. DERRIDA. Op.
cit. P. 231)
É
contra o aplacamento dessa angústia provocada pelo jogo que a prosa moderna, ao
invés de a ele se negar, passa a explorá-lo, distendendo-o ao máximo possível
na experimentação da “crise” do narrar. E é a partir dessa entrega desmedida ao
jogo, pela constatação da ausência de um centro ou de uma totalidade, que no
romance A Fúria do Corpo encontra-se exposta a constituição do
sujeito-narrador e do corpo como objeto de narração.
2
Com
uma linguagem desmembrada, em que o correr frouxo dos períodos longos e o caleidoscópio
de imagens profusas quase não permite divisar pontos de ruptura entre as orações,
o texto de Noll reacende, em algumas instâncias, os procedimentos estilísticos desordenadores,
utilizados na prosa moderna para dar conta das inquietudes do sujeito. No entanto,
a presença do instável anunciada em seu texto deverá ser melhor definida na medida
em que as próprias falas do narrador questionam explicitamente o estatuto desse
sujeito em sua identidade fixa, centrada ou, como se costuma dizer, cartesiana.
Esse
aspecto pode ser analisado na opção do narrador por uma identidade francamente
indagadora do seu estoque de identificações, quando no discurso de abertura do
romance a voz narrativa se apresenta, ou se não-apresenta:
O
meu nome não. Vivo nas ruas de um tempo em que dar nome é fornecer suspeita. A
quem? Não me queira ingênuo: nome de ninguém não. Me chame como quiser, fui
consagrado a João Evangelista, não que o meu nome seja João, absolutamente, não
sei de quando nasci, nada, mas se quiser o meu nome busque na lembrança o que
de mais instável lhe ocorrer. (NOLL, João
Gilberto. Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras,
1997. P. 25.)
No
dizer de Gilles Deleuze, ao analisar os jogos do devir na obra de Lewis
Carroll, “a perda do nome próprio é a aventura que se repete através de todas
as aventuras de Alice. Pois o nome próprio ou singular é garantido pela
permanência de um saber”.8 Como Alice, o narrador-sem-nome de Noll também se
envolve pela necessidade de escapulir a um saber que preencheu a vida de
certezas, o que se traduz na negação veemente ao passado: “O meu nome não. Nem
o meu passado, não, não queira me saber até aqui, digamos que tudo começa neste
instante onde me absorvo de toda a dor já transpassada e sem nenhum ressentimento
tudo começa a contar de agora.”
E
nesse ponto, a deslegitimação dos saberes prévios se aproxima da definição elaborada
por Silviano Santiago a propósito do narrador pós-moderno: a negação da memória
e da experiência como um fim último para o sujeito. Em análise de alguns contos
de Edilberto Coutinho, Silviano põe em questionamento o estatuto da narração
tradicional, como apresentado no clássico estudo de Walter Benjamin sobre o
narrador.
Para
Benjamin, narrar é trocar por palavras experiências vividas, e a morte da narrativa,
na Modernidade, associa-se ao fato de que as experiências perderam muito do seu
valor, extinguindo-se “o lado épico da verdade, a sabedoria”.11 Forma
ameaçadora para a narrativa clássica se constituiria então a informação
jornalística, que se utiliza dos meios de comunicação postos ao nosso dispor
desde os períodos áureos da burguesia. Narrativa e jornalística são
inconciliáveis na medida em que esta última se garante na instantaneidade do
tempo, pois vive para o momento e depende inteiramente dele, ao passo que a primeira
cultiva o dom da memória, buscando reter ao máximo possível aquilo que é
transmitido.
Silviano
Santiago conceitua o narrador pós-moderno aproximando-o da figura do jornalista.
Ao narrar, o jornalista não descreve sua própria experiência; simplesmente
narra a ação estando fora dela, sem se ocupar de criar laços ou de se apoderar
da coisa narrada. A sabedoria transmitida pelo narrador pós-moderno parte de
experiências que não lhe pertencem; ele não pretende dar conselhos, contenta-se
em lançar um olhar ao seu redor, um olhar revestido da palavra que jamais
condena ou absolve.
Uma
vez que o estudo do narrador empreendido por Silviano Santiago, assim como o
nosso, é bastante específico, interessa-nos sua leitura não pelo que define
como sendo uma subtração do narrador pós-moderno à ação narrada, mas pelo que o
leva a tratar o problema da experiência em sua relação com um possível passado
incrustado na memória, o passado sendo aqui desafiado como o lugar em que se
ancoram as certezas, as continuidades.
Na
narrativa tradicional, o relato da experiência está do lado das verdades que já
foram ditas e devem ser reeditadas. Em Noll, as verdades antigas do
narrador-sem-nome são desautorizadas para que possam emergir outras verdades
antes subalternas. A operação de desrecalque irá se agenciar no próprio objeto
de narração, quando surge a necessidade de deflagrar a afirmação do corpo em
lugar do nome, de construir uma identidade marcada pelo sexo e de inaugurar-se
no instante deste sexo: “Sexo, o meu sexo sim: o meu sexo está livre de
qualquer ofensa, e é com ele-só-ele que abrirei caminho para eu e tu, aqui. O
meu nome não. (...) só tenho o sexo”.
Em
nome do corpo se promove na narrativa o descentramento do sujeito. A contestação
de uma identidade pessoal e a sede do anonimato, constantes no texto de Noll, representam
as vias por meio das quais se agencia o deslocamento de uma identidadehomem para
uma identidade-corpo. É quando o narrador, empobrecido de experiências passadas,
elege o corpo como o terreno da sua história, que a narrativa atualiza e
completa sua voltagem pós-moderna.
3
A
tradição do pensamento ocidental funda a coerência do ser, aquele que se fecha sobre
uma essência, que é total e uno, portanto, indivisível. Nesse sujeito não
somente recalcam-se o corpo e suas sensações — lição do platonismo, bem como se
constrói uma imagem corporal condizente à representação humana a ser legitimada
na cultura e suas representações de poder. O humano então são as formas do
corpo em seus enquadramentos: o julgamento da religião, da biologia, da
estética, do capital, dentre uma série de discursos instituídos. Assim o logos
ocidental narra o corpo e lhe dá sentido. Assim nomeia-se o corpo e
aprende-se a identificá-lo, restando o lugar das bordas àqueles que de uma
forma ou de outra não atingem uma identidade humana exemplar.
Se
é humano quando se tem um determinado gênero, um determinado sexo, uma forma
específica de se portar à mesa, um modelo nítido de beleza, de raça e também de
posição social. O peso da humanidade se impõe através de limites e organizações
bem definidos, identidades firmemente soldadas, separando o feio do bonito, o
limpo do sujo, o comum do sublime, o saudável do doente, o normal da aberração.
Mas quantos outros relatos, modos de identificação desviantes, circulam ao largo
desse paradigma excludente? Na contemporaneidade, a noção de pós-humano se
define no campo da produção de subjetividades, a partir de uma gama de
investimentos em representações e comportamentos por meio dos quais se dá lugar
a outras maneiras de ser, outras sensibilidades que não aquelas impostas para a
identidade da espécie.
Poderá
um corpo ser pós-humano? É esta pergunta que se impõe no texto de Noll, quando
a narrativa conduz as personagens Afrodite e o narrador-sem-nome ao submundo de
Copacabana, trazido para representar o cenário ficcional de uma trajetória de
corpos devastados. Essas personagens vivem como mendigos. Não possuem passado e
o seu futuro é nebuloso. O sexo, por elas praticado com parceiros e parceiras
diferenciados, ultrapassa barreiras de gênero, classe, faixa etária ou raça.
Também aqui as zonas altas e epidérmicas do corpo nunca são reverenciadas, não
se sabe se alguém é magro, gordo, loiro, negro, feio ou bonito. Tudo o que
nesses corpos precisa-se reconhecer encontra-se descrito em imagens agudas da
genitália, uma descrição que, por sua vez, não reitera a sensualidade plástica
do
alto
erotismo.
Em
A Fúria do corpo, os traços da pós-humanidade se colocam especialmente
nessa exposição livre do corpo e dos seus extratos materiais, promovendo a
emersão de uma paisagem narrativa escatológica. Não raramente, os indivíduos se
encontram aqui envoltos em imagens de excrementos que funcionam como signos de
uma sujeira traduzida do lixo orgânico do corpo ao lixo urbano das ruas,
encardindo as paredes descascadas, os bueiros e sanitários fétidos. O
escatológico é então cifra da impureza, do impuro como metáfora crítica da
assepsia e daquilo que esta elege de mais contrito para o corpo humano: o seu aspecto
saudável.
A
consciência de que as impurezas materiais funcionam como empecilho para a vida
sinaliza uma compreensão do corpo norteada pelas regras de assepsia, que nos chegam,
com maior vitalidade, naquilo que Michel Foucault aponta como sendo o ideal burguês
de saúde: “um corpo para ser cuidado, protegido, cultivado, preservado de todos
os perigos, de todos os contatos, isolado dos outros para manter seu valor
diferencial (...)”.
Os
cuidados com a higiene-sanitária, bem como a criação de serviços médico hospitalares,
garantirão a promessa de longevidade, que, por sua vez, implicará no aperfeiçoamento
da descendência. Essa responsabilidade biológica para com a espécie humana se
expandirá no cientificismo do século XIX até alcançar as inovações da
tecnociência dos corpos na contemporaneidade, em que é possível a fabricação in
vitro de seres humanos, com direito à escolha genética e alteração de
possíveis imperfeições físicas.
O
certo é que, de lá até aqui, às custas de aperfeiçoamentos e transformações, a imagem
de saúde que se erige sobre esse corpo vem se disseminando mesmo no imaginário daquela
camada da sociedade que não tem acesso aos devidos cuidados sanitários,
tornando impossível pensar em humanidade, para quem quer que seja, fora da
purificação física que o ideário da saúde situou nos primórdios da Modernidade.
Acrescentem-se aqui questões de controle econômico e sujeição política,
envolvendo os relatos qualificados de cidadania que, para os indivíduos
acolhidos no texto de Noll, revelam-se altamente abstratos e inverossímeis.
Em
A Fúria..., tanto no corpo de aspecto doentio quanto no sujeito
desgarrado do convívio social imprime-se uma posição crítica em relação ao
modelo de humanidade per se. Tomemos uma das passagens mais agudas desse
corpo crítico, exposta no romance:
(...)
e eu me levantei pra mijar e fui entrando por uma macega tirei o pau pra fora e
começo a mijar e veio um grito vindo de baixo dois leprosos um em cima do outro
e eu tava mijando em cima deles o debaixo devia ser mulher porque tinha umas
sobras pelancudas onde outrora devia ser o seio o de cima tinha uma bunda
carcomida por crateras e os dois olharam pro meu pau e riram um riso doido e o
debaixo que deveria ser mulher pediu que mijasse mais o de cima com a cabeça
virada pro meu pau repetiu mais mais minha uretra ardeu como se pegasse fogo
não eu quase gritei não mas era tarde porque já não tinha forças pra comprimir
o mijo e lá embaixo estavam os dois recebendo em gozo o banho de mijo e bebendo
o mijo e começaram a rolar pelo chão e a exalar doidos gemidos gargalhadas e
ali onde eles deveriam ter o sexo era pura lama de sangue e aí percebi mesmo
que o debaixo era mulher e o de cima era homem porque no debaixo só se via
sangue no sexo e no de cima havia uma massa ensangüentada (...)(NOLL. Op. Cit. P.
54.)
Cambiando
a ruína do corpo biológico pela do signo humano social, a cena de sexo dos
leprosos coroa uma reflexão posta em exercício por todo o romance de Noll: o
rechaço ao conceito centralizador que não permite qualquer forma de vida fora
dos domínios de uma humanidade modelar. Na narrativa, esses corpos desfalcados
não pretendem uma condição existencial que jamais terão – respaldada nos
cuidados do corpo, boa alimentação, planos de saúde, terapias – e da qual se
reconhecem excluídos. Muito ao contrário, suas presenças sugerem que o ideal de
um corpo saudável não é prerrogativa para o viver, pois o que se entende por
vida ultrapassa a imagem hegemônica de saúde e desmascara-a na sua tentativa de
recusar os que dela representam a diferença.
A
visibilidade afirmativa nas bordas da existência assinala o jogo desconstrutor
na medida em que se ativa a possibilidade de legitimar a instância subjugada,
representação bastarda, deslocando-se os valores centralizantes e fazendo
emergir a periferia. Em entrevista à Isto É, João Gilberto Noll parece
confirmar o processo:
Sempre
tive vontade de mencionar o imencionado, aquelas questões que estão aparentemente
na periferia dos nossos interesses cotidianos, que não são apontadas no meio
social. A par disso a minha literatura é muito preocupada com as forças
expressivas, com as forças, excretivas, excretoras, do corpo. Não é só a urina.
Os meus personagens suam muito, ejaculam, defecam. Porque, como falei antes,
acho que a literatura deve mencionar questões vistas como periféricas pelo
pensamento hegemônico, a ideologia do cotidiano. (...)(Cf. SCLIAR,
Moacir. A busca do romance sinfônico. Isto é, São Paulo, Abril Cultural,
fevereiro, 1987. P12.)
A
essa altura, a desconstrução da identidade-homem em favor de uma identidade corpo
não culmina na destruição do sujeito, mas na emersão de outras formas do
humano, abafadas pela cultura oficial ou pela “ideologia do cotidiano” a que
Noll se refere. Aqui, toca-se num ponto caro à teoria derridiana: desconstruir
não significa pulverizar, mas antes provocar uma rachadura no que se acreditava
coeso e uniforme, fundamentado e essencializante. Há um equívoco em se pensar
na crítica desconstrutora como a vontade ingênua de se erguer uma outra verdade
melhor que supere aquela verdade primeira, supostamente destruída.
Podemos
obter o exemplo de como a desconstrução se processa, a partir da crítica e não
da superação, se retornamos aos princípios norteadores da crise do narrar na
prosa moderna e observamos que tal crise não destrói efetivamente a narrativa.
Muito menos o declínio da experiência no narrador pós-moderno, citado por Silviano
Santiago, consegue excluir da narrativa a figura do narrador. O certo é que se
continua a narrar, mas um narrar descentrado, que traz para o próprio seio do
texto narrativo o que se constitui em incômodo e impossibilidade.
E
isso pode ser constatado no modo como o narrador de A Fúria do corpo enfrenta
mais uma vez a discussão do sujeito, não como o prenúncio de um ser
aleatoriamente fragmentado e/ou alienado (o não-ser), mas no questionamento
desconcertante de suas próprias bases de constituição enquanto ser, apontando
para um ser-outro:
Tenho
a paz: não quero mais, não espero a herança prometida em papel-bíblia, sou
aquele a que nunca visei porque não podia vislumbrar até aqui, a carreira da vida
é um constante assombro quando nos vemos assim de repente de frente ao Mar a
sós com ele e nos perguntamos: sou eu este que olha o mar em meio à jornada? Sou
eu este momento com um passado que desconheço? Sou eu à deriva ou me construo? Sou
eu o meu passado ou ele não passa de uma ferida para sempre coagulada? Sou eu o
meu presente? E este instante assim avulso, sou eu? A quem pertenço se não aos
elementos? Recordar é viver? Ou tudo não passa de um mesmo aí? Sou um elo da
força ou uma ameba incrustada no vão do Universo? Faço parte? Tenho futuro? Alguém
me chama? Alguém me reclama? Alguém me resgata? (NOLL. Op. Cit. P.
139.)
Todas
essas micro-indagações irão se fundir numa grande e crucial pergunta: sou eu à
deriva ou me construo? Expondo a reflexão flagrante que se alarga nos tempos contemporâneos:
saber da construção, saber-se construção. Somente essa consciência pode fornecer
as ferramentas necessárias para uma revisão de valores. Nada pode estar mais ligado
à possibilidade de desconstruir do que a consciência de não se ter uma experiência
para ser narrada a título de ensinamento, de não se poder contar com uma
anterioridade que nos contenha e nos englobe como sujeitos estáveis. Também
nada pode parecer mais desconstrutor do que trazer para o âmbito desse sujeito
descentrado o relato periférico de corpos que perecem nas enfermarias do
serviço público de saúde, nos becos úmidos da
Copacabana
dos pobres, nas latas de lixo dos mendigos ou nas entranhas sujas da mulher amada.
É preciso perseguir esses corpos andarilhos na impureza e na degenerescência.
Eis o grande empreendimento da pós-humanidade em Noll: narrar um saber que
entope as veias. Não é aleatoriamente que o autor declara em uma outra
entrevista: “escrevo porque está doendo organicamente”.
Essa
dor orgânica, tornada motivo e cenário da escritura, encontra-se disseminada na
fala do narrador, reafirmando a identidade-corpo pós-humanista e promovendo
agora uma rearticulação dos conceitos de corpo e de idéia, ao frisar que ambos
ganham, na narrativa, o mesmo estatuto de solidez: “(...) já não me faço por
onde ser entendido porque as idéias aqui não são feitas para a expressão mas
existem em seu estado sólido e são tão assimiladas quanto o alimento pelo
organismo.”
A
solidez possível, anunciada em a Fúria do Corpo, é aquela que traz a palavra
e a carne para desmistificar a solidez dos consensos, partindo rumo a outras
produções de sentido. A crítica do sujeito como o centro deflagra a consciência
de que não há nenhuma verdade embutida, inalienável, à espera de alguém que a
desvende: nenhuma pureza ou ponto de vista confortável. E é disso que também
nos falam os andróides de Blade Runner, quando as máquinas pensantes da
ficção científica disputam o direito à humanidade. No decorrer do filme fica
claro que tanto para elas quanto para nós este lugar é impossível, pois a
memória, fonte e garantia de toda certeza sobre a vida, não passa de um chip,
um
implante,
suplemento que se ganha e que se perde no jogo incessante de substituições sígnicas.
Nesse
viés, a diluição do humano não deve ser tomada por vazio existencial ou fascínio
niilista e alienado pelo caos, mas antes como a queda do sujeito transcendente.
O sujeito é então compreendido não nos limites entrincheirados de uma essência,
mas na tessitura de sua posicionalidade, tornando viável à identidade humana se
inaugurar como força híbrida que se desloca, morre e renasce numa eterna
adolescência do ser. Assim como os andróides de Blade Runner, os corpos
de Noll nos falam dessa adolescência: sem passado, sem futuro, sem
possibilidade de resgate. Apenas na fúria de sua pós-humanidade – o alimento.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEste comentário foi eu que apaguei, ao perceber alguns erros, e postei novamente, abaixo
ExcluirO texto "O narrador pós-moderno" vem falar de uma literatura a partir do cotidiano do ser humano mostrado a verdadeira realidade social.Fala da sociedade atual, e busca mostrar sem rodeios as piores coisas que acontecem em nossa volta, fala do ser humano como ele é com todas as suas peculiaridades, e fala desta juventude que está ai "sem passado, sem futuro, sem possibilidade de resgate"
ResponderExcluirAdelmo, grande oportunidade de ler outra coisa acerca da narrativa! Não tinha pensado por esse viés. Entendi que há uma atenção para outros modos de narrar, uma vez que o narrador preconizado por Benjamin parece centrar-se ainda na tal essência do sujeito. Interessante o caminho...
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirProfessor Orlando Freire, fazendo uam interdisciplinaridade com a sua disciplina "CÂNONES E CONTEXTOS NA LITERATURA BRASILEIRA", no texto "O Pau Brasil" de Osvald de Andrade, eu gostaria de saber se a ruptura com a forma de escrever poesia foi ou não influenciada por esta nova forma de fazer narrativas? Por que antes a posia era feita com um palavrado mais rebuscado, cheias de adjetivos e com Osvald de Andrade percebemos a poesia construída com acontecimentos cotidianos, não sei se estou correto, mas lento este comentário do professor Felipe Serpa sentir a necessidade de tentar fazer esta correlação. Pois o texto Sayonara Amaral também nos remete para a construção de textos cheios de elementos da nossa realidade.
ResponderExcluirPode ser, Adelmo, principalmente do ponto de vista da língua cotidiana, mas é preciso lembrar que Oswald faz lírica e nós não podemos ler a poesia da mesma forma que lemos narrativas. São duas linguagens diferentes, sendo a poesia uma linguagem que se afasta da sintaxe da linguagem informativa e a narrativa uma linguagem que se aproxima da linguagem informativa. Essas linguagens dialogam, mas tem suas especificidades.
ResponderExcluirOrlando Freire junior
Quanto ao texto de Sayonara, gostaria de pontuar a qualidade da escrita e da pesquisa, mas o que me inquietou foi o conceito de pós-humano, posto que a minha noção de humano se coaduna com a de imperfdeição, penso que seja possibilidade de debate.
ResponderExcluirOrlando Freire Junior